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O papel dos zoológicos e aquários em pandemias

O papel dos zoológicos e aquários em pandemias

A conservação in situ, a conservação ex situ, a pesquisa e a educação ambiental sempre foram bases sólidas para as atividades dos profissionais da área ambiental e mais do nunca necessária em momentos como os que estamos vivendo. A relação entre essas e a área da saúde é muito mais intrínseca que a maior parte da população mundial imagina, e isso, infelizmente, tem sido comprovado com a pandemia que estamos vivendo.

A forma como o coronavírus — agora chamado SARS-CoV-2 e que causa em humanos a COVID-19 — presumivelmente conseguiu migrar de morcegos e ou pangolins para seres humanos, e se transformou no maior problema da humanidade é, hoje, a nossa maior evidência de como é importante preservar o meio ambiente, fazendo uso de todas as estratégias conservacionistas in situ ou ex situ, para esse objetivo comum.

Em um momento de emergência sanitária mundial, com notória retração em diversos setores da sociedade, é prudente mantermos a proatividade para estarmos prontos no momento de ampla recuperação que virá. Precisamos continuar em frente. Essa crise vai passar! Os zoológicos, aquários, mantenedores, criadouros e demais instituições que manejam fauna sob cuidados humanos mais do que nunca terão um papel crucial na conservação da fauna, na preservação dos biomas in situ e na educação ambiental pragmática, a fim de se evitar novas catástrofes, como a que estamos vivendo. Por isso precisamos ajustar, rever e atualizar nosso propósito institucional.

Nosso público precisa conhecer e reconhecer nosso papel como instituição conservacionista. Precisamos ser mais eficientes ao explicar para eles o quão perigoso é comer, caçar e traficar animais silvestres. Explicar como essa pandemia começou, por falta de diversos aspectos como educação, conhecimento, infraestrutura sanitária, políticas públicas ambientais e sanitárias;

Que promovemos lazer e entretenimento, isso eles já sabem; mas também promovemos ciência e conhecimento sobre conservação — e isso tem impacto direto na saúde coletiva, na conservação da fauna e flora in situ e no processo de evitar novas pandemias. Mais do que nunca está evidente o quanto precisamos aprimorar nossas ações colaborativas in situ e ex situ, e o quanto precisamos apresentar isso à sociedade.

Não é a primeira vez que isso ocorre na história da humanidade — e provavelmente não será a última —, mas é certo que a pandemia atual nos trará grandes ensinamentos: ou os assimilamos em nossas vidas ou estamos fadados a um futuro incerto.

Alguns exemplos:

  • o vírus Hendra, que saltou de cavalos para homens na Austrália, em meados dos anos 1990, mas teve sua origem em morcegos;
  • o hantavírus, que pode causar febre hemorrágica, sofre mutações em roedores e passam para serem humanos;
  • o Lassa, vírus que também provoca febre hemorrágica, também sofre mutação e passa de roedores para humanos;
  • o vírus da febre amarela, oriundo de macacos;
  • a catapora, que parece pular de esquilos;
  • o Herpes vírus B, que pula de primatas;
  • os influenza, causadores da gripe (H1N1, H5N1 etc.), pulam de pássaros selvagens para aves domésticas, e depois para pessoas, e às vezes após uma transformação, em porcos;
    • o sarampo, que pode ter saltado para dentro de nós a partir de ovelhas e cabras domesticadas;
  • o HIV-1, que entrou em nosso caminho a partir de chimpanzés;
  • o Mayaro não é o único vírus amazônico capaz de causar doenças em seres humanos. Na Amazônia brasileira existem 34 tipos de arbovírus — vírus transmitidos por insetos — que afetam o homem, mas acredita-se que esse número seja muito maior.
  • a SARS, sigla para Síndrome Respiratória Aguda Grave, que assolou a China no início dos anos 2000 — mas foi contida —, e é provocada por um coronavírus, o SARS-CoV-1. É um “parente” dele que causa a COVID-19, batizado de SARS-CoV-2. Supostamente é um vírus originário de morcegos e pangolins.

Assim, vemos que há outras tantas doenças com origem em ambientes silvestres. Mas, uma grande fração de todos os novos vírus letais sofrem mutações e passam para nós a partir de diferentes animais.

E a solução, antes que alguém pense em exterminá-los, está justamente no oposto. Está diretamente relacionado a respeitarmos e preservarmos mais e mais seus habitats, em vivermos e praticarmos o consumo sustentável. De acordo com o escritor norte-americano David Quammen, especialista em ciência e natureza, na obra Spillover: Animal Infections and the Next Human Pandemic, publicada em 2012, as pandemias originárias de zoonoses — doenças infecciosas capazes de serem naturalmente transmitidas entre animais e seres humanos — nada mais são do que um reflexo das intervenções do homem no meio ambiente. No anseio para se expandir, a humanidade invade o terreno alheio e com isso recebe os problemas de lá.

Por isso, precisamos aprender a trabalhar de forma colaborativa, planejar o propósito de manejar cada um dos espécimes sobre nossa responsabilidade, e deixar alinhado com todos os parceiros como essas populações ex situ ajudarão a recuperar, a garantir ambientes saudáveis, e que sustentem populações de animais silvestres em equilíbrio. Como instituições focadas na conservação, precisamos estabelecer metas comuns e mostrar, de forma clara, os resultados de nossas atividades.

Sejamos nós técnicos, diretores, veterinários, zootecnistas, biólogos, educadores ou gestores; antes de tudo, sejamos seres humanos com o altruísmo, a perseverança, a força e a fé que nos habilita a seguir em frente. 

Juntos somos mais.

Onde precisamos atuar!? Onde o resultado de nossas atividades precisam impactar!? Quantas epidemias ainda iremos superar!? Só depende de nós.

Gerson Norberto

@norberto.gerson

Academia da Conservação
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