[ editar artigo]

O Genoma da Onça-pintada

O Genoma da Onça-pintada

MAIOR FELÍDEO DAS AMÉRICAS

A onça-pintada (Panthera onca) é a maior espécie de felídeo das Américas. Como predadora de topo da cadeia alimentar, a onça-pintada, assim como outros carnívoros, é considerada importante para a manutenção do funcionamento e dinâmica dos ecossistemas. Isso porque os carnívoros controlam o tamanho populacional de suas presas, impedindo que seus números cresçam em demasia, o que poderia causar um desequilíbrio no ambiente, principalmente devido à intensificação da herbivoria e alteração das relações ecológicas entre as espécies. Ainda, ao se alimentar de animais doentes, os predadores ajudam a controlar a dispersão de pragas e doenças.

SÍMBOLO DA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Foto: Onça-pintada - Adobe Stock.

Além de possuir um papel importantíssimo na manutenção dos ecossistemas, a onça-pintada é considerada uma espécie carismática, o que aumenta o engajamento das pessoas em questões de conservação, e beneficia outras espécies consideradas menos “atrativas”. Assim, a proteção da onça-pintada pode auxiliar na conservação de outras espécies e até mesmo de ecossistemas.

DO SUL DOS ESTADOS UNIDOS ATÉ A PATAGÔNIA ARGENTINA

Foto: Onça-pintada - Adobe Stock.

Originalmente a onça-pintada possuía uma ampla distribuição geográfica: desde o sul dos Estados Unidos até a Patagônia, na Argentina. No entanto, devido às severas alterações nos ambientes em que habita, principalmente devido à perda e fragmentação de seus habitats, a espécie foi extinta em cerca de 50% de sua área de ocorrência.

A degradação do ambiente reduz a quantidade de habitat disponível para a espécie e divide essas áreas em fragmentos de remanescentes de vegetação natural. À medida que esses fragmentos de habitat se tornam menores e espacialmente mais isolados, o tamanho das populações que habitam estes fragmentos é reduzido, e seu isolamento geográfico aumenta. Sem fluxo gênico, isto é, sem reprodução entre indivíduos de diferentes populações, a variabilidade genética das populações diminui. Ainda, populações pequenas são mais susceptíveis ao cruzamento de indivíduos aparentados, o que também reduz a variabilidade genética da população.

A IMPORTÂNCIA DA VARIABILIDADE GENÉTICA

A variabilidade genética é importante para a sobrevivência de uma população, pois ela fornece à seleção natural um maior número de possiblidades sobre as quais ela poderá agir, gerando assim um maior número de adaptações que tendem a aumentar a probabilidade de sobrevivência desta população ao longo do tempo. Populações com variabilidade genética baixa podem apresentar altas taxas de mortalidade, baixa fecundidade, instabilidade no desenvolvimento, maior suscetibilidade a doenças e menor capacidade de adaptação frente a mudanças ambientais, o que aumenta o risco de extinção destas populações.

DOS SEIS BIOMAS BRASILEIROS, A ONÇA-PINTADA AINDA OCORRE EM CINCO DELES, TENDO SIDO EXTINDA NO BIOMA PAMPA.

A Amazônia é considerada a área mais importante para a conservação da espécie, pois é a área que apresenta a maior diversidade genética e o maior tamanho populacional da espécie. No entanto, a crescente expansão do arco do desmatamento e a caça ilegal vem ameaçando a sobrevivência da espécie em inúmeras áreas deste bioma.

Assim como a Amazônia, o Pantanal é um dos principais biomas para a conservação da onça-pintada. Porém, apesar de apresentar tamanho populacional elevado e alta conectividade entre diferentes regiões do bioma, as populações pantaneiras apresentam níveis de diversidade genética moderados.

As populações de onças-pintadas da Mata Atlântica, por outro lado, encontram-se fortemente fragmentadas, ou seja, as onças-pintadas que residem neste bioma estão divididas em pequenos grupos, isolados uns dos outros. Atualmente, estima-se que existam menos de 250 indivíduos em idade reprodutiva neste bioma e análises de viabilidade populacional indicam elevada probabilidade de extinção em algumas áreas de Mata Atlântica nas próximas décadas.

Já nos biomas Cerrado e Caatinga, estima-se que existam cerca de 250-300 indivíduos em idade reprodutiva, e não se conhece a diversidade genética das populações de onça-pintada destes biomas.

Considerando as elevadas taxas de perda e fragmentação dos biomas brasileiros, associadas a pequenas estimativas de número de indivíduos em idade reprodutiva de onças-pintadas em vários destes biomas, a conservação da espécie no futuro poderá depender não apenas da criação de corredores ecológicos e unidades de conservação, mas também da reintrodução de indivíduos.

COMO GARANTIR UM FUTURO PARA A ONÇA-PINTADA?

Projetos de conservação ex situ, isto é, de animais silvestres sob cuidados humanos, vem se tornando uma estratégia importante para a conservação de espécies ameaçadas, pois além de fornecerem indivíduos para reintrodução, também promovem o reforço genético, ou seja, o aumento da variabilidade genética. Assim, projetos que visem à reprodução de indivíduos em cativeiro para posterior reintrodução na natureza estão crescendo em número e importância.

Para a construção adequada de um plantel de indivíduos reprodutores para possíveis programas de reintrodução ou reforço populacional, é necessário levar em consideração fatores como a diversidade genética dos indivíduos em cativeiro e sua representatividade das populações naturais.

Desta forma, programas de reprodução ex situ devem priorizar o cruzamento de indivíduos com baixa similaridade genética, visando a maximizar a diversidade genética mantida na população que servirá de base para futuras solturas na natureza.

Outro fator a ser considerado é que populações de diferentes regiões ou biomas podem apresentar características genéticas próprias, incluindo adaptações a estes ambientes. Desse modo, o pareamento de indivíduos de diferentes regiões pode mascarar esta diferenciação natural e reduzir as adaptações da prole aos diferentes ecossistemas naturais, com isso diminuindo sua chance de sobrevivência na natureza.

PROGRAMA DE CATIVEIRO DA ONÇA-PINTADA

Visando auxiliar na conservação da onça-pintada, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (CENAP/ICMBio) e a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB) lançaram o Programa de Cativeiro da Onça-Pintada, que irá orientar as melhores destinações e pareamentos das onças-pintadas em cativeiro, bem como traçar um planejamento para a conservação ex situ da espécie em longo prazo.

PROJETO GENÔMICO PARA A CONSERVAÇÃO EX SITU DA ONÇA-PINTADA NO BRASIL

O Programa conta com apoio do Instituto Conhecer para Conservar, do BioParque do Rio e do Laboratório de Biologia Genômica e Molecular da PUCRS. Que através da realização de uma importante pesquisa constroem conhecimentos fundamentais às orientações para a formação um plantel brasileiro de reprodução ex situ de onças-pintadas que seja representativo das populações brasileiras da espécie para o desenvolvimento de futuros projetos de reprodução ex situ e reintrodução na natureza.

Esse plantel será determinado através da caracterização genômica da população ex situ no Brasil. Para isso, estão sendo sequenciados e analisados genomas completos de 18 indivíduos de onças-pintadas com potencial reprodutivo que se encontram sob cuidados humanos em diversas instituições mantenedoras brasileiras.

Os indivíduos cujos genomas serão sequenciados foram escolhidos com base em dois critérios:

(i) ter procedência geográfica em natureza conhecida, dando prioridade para onças provenientes dos biomas Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado, pois são os biomas mais ameaçados e/ou ainda pouco estudados geneticamente; e

(ii) estar em idade reprodutiva (menos de 15 anos).

O TINDER DAS ONÇAS-PINTADAS?

Com base na variabilidade genética dos indivíduos, serão recomendados possíveis pareamentos (formação de casais) para a reprodução ex situ da espécie que aumentem a variabilidade genética das populações naturais, auxiliando assim, na sua conservação.

Foto: Onças-pintadas - ShutterStock.

 

Referências Bibliográficas

Cavalcanti, S. M. C., de Azevedo, F. C. C., Tomas, W. M., Boulhosa, R. L. P., & Crawshaw Junior, P. G. (2012). The status of the jaguar in the Cerrado. CAT News, 29–34.

Eizirik, E., Kim, J. H., Menotti‐Raymond, M., Crawshaw Jr, P. G., O’Brien, S. J., & Johnson, W. E. (2001). Phylogeography, population history and conservation genetics of jaguars (Panthera onca, Mammalia, Felidae). Molecular Ecology, 10(1), 65-79.

Farquharson, K. A., Hogg, C. J., & Grueber, C. E. (2017). Pedigree analysis reveals a generational decline in reproductive success of captive Tasmanian devil (Sarcophilus harrisii): implications for captive management of threatened species. Journal of Heredity, 108(5), 488-495.

Frankham, R., Balloux, J. D., & Briscoe, D. (2010). Introduction to Conservation Genetics. Cambridge University Press, Cambridge.

Haag, T., Santos, A. S., Sana, D. A., Morato, R. G., Cullen Jr, L., Crawshaw Jr, P. G., ... & Eizirik, E. (2010). The effect of habitat fragmentation on the genetic structure of a top predator: loss of diversity and high differentiation among remnant populations of Atlantic Forest jaguars (Panthera onca). Molecular Ecology, 19(22), 4906-4921.

Haddad, N. M., Holt, R. D., Jr Fletcher, R. J., Loreau, M., & Clobert, J. (2017). Connecting models, data, and concepts to understand fragmentation's ecosystem‐wide effects. Ecography, 40(1), 1-8.

Howard, J. G., Lynch, C., Santymire, R. M., Marinari, P. E., & Wildt, D. E. (2016). Recovery of gene diversity using long‐term cryopreserved spermatozoa and artificial insemination in the endangered black‐footed ferret. Animal Conservation, 19(2), 102-111.

Keller, L. F., & Waller, D. M. (2002). Inbreeding effects in wild populations. Trends in ecology & evolution, 17(5), 230-241.

Keyghobadi, N. (2007). The genetic implications of habitat fragmentation for animals. Canadian Journal of Zoology, 85(10), 1049-1064.

Kierulff, M. C. M., Ruiz‐Miranda, C. R., de Oliveira, P. P., Beck, B. B., Martins, A., Dietz, J. M., ... & Baker, A. J. (2012). The G olden lion tamarin Leontopithecus rosalia: a conservation success story. International Zoo Yearbook, 46(1), 36-45.

Kleinman-Ruiz, D., Soriano, L., Casas-Marce, M., Szychta, C., Sánchez, I., Fernández, J., & Godoy, J. A. (2019). Genetic evaluation of the Iberian lynx ex situ conservation programme. Heredity, 123(5), 647-661.

Krohn, A. R., Conroy, C. J., Pesapane, R., Bi, K., Foley, J. E., & Rosenblum, E. B. (2018). Conservation genomics of desert dwelling California voles (Microtus californicus) and implications for management of endangered Amargosa voles (Microtus californicus scirpensis). Conservation genetics, 19(2), 383-395.

Kyle, R., Beatty, G. E., Roberts, D., & Provan, J. (2016). Using genetic monitoring to inform best practice in a captive breeding programme: inbreeding and potential genetic rescue in the freshwater pearl mussel Margaritifera margaritifera. Conservation genetics, 17(6), 1323-1332.

Lacy, R. C. (1997). Importance of genetic variation to the viability of mammalian populations. Journal of Mammalogy, 78(2), 320-335.

Lorenzana, G., Heidtmann, L., Haag, T., Ramalho, E., Dias, G., Hrbek, T., ... & Eizirik, E. (2020). Large-scale assessment of genetic diversity and population connectivity of Amazonian jaguars (Panthera onca) provides a baseline for their conservation and monitoring in fragmented landscapes. Biological Conservation, 242, 108417.

Macdonald, E. A., Burnham, D., Hinks, A. E., Dickman, A. J., Malhi, Y., & Macdonald, D. W. (2015). Conservation inequality and the charismatic cat: Felis felicis. Global Ecology and Conservation, 3, 851-866.

Nowak, R. M. (2005). Walker's Carnivores of the World. JHU Press.

Paula, R. C., Desbiez, A., & Cavalcanti, S. M. C. (2013). Plano de açao nacional para a conservaçao da onça pintada. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Brasilia, Brazil: ICMBio.

Pritchard, D. J., Fa, J. E., Oldfield, S., & Harrop, S. R. (2012). Bring the captive closer to the wild: redefining the role of ex situ conservation. Oryx, 46(1), 18-23.

Ripple, W. J., Estes, J. A., Beschta, R. L., Wilmers, C. C., Ritchie, E. G., Hebblewhite, M., ... & Schmitz, O. J. (2014). Status and ecological effects of the world’s largest carnivores. Science, 343(6167).

Sanderson, E. W., Redford, K. H., Chetkiewicz, C. L. B., Medellin, R. A., Rabinowitz, A. R., Robinson, J. G., & Taber, A. B. (2002). Planning to save a species: the jaguar as a model. Conservation Biology, 16(1), 58-72.

Santymire, R. M., Livieri, T. M., Branvold-Faber, H., & Marinari, P. E. (2014). The black-footed ferret: on the brink of recovery?. In Reproductive sciences in animal conservation (pp. 119-134). Springer, New York, NY.

Snyder, N. F., & Snyder, H. (2000). The California Condor: a saga of natural history and conservation (p. 410). San Diego, CA, USA: Academic Press.

Spielman, D., Brook, B. W., & Frankham, R. (2004). Most species are not driven to extinction before genetic factors impact them. Proceedings of the National Academy of Sciences, 101(42), 15261-15264.


Participe com suas próprias publicações na Academia da Conservação. Veja aqui algumas dicas que separamos pra você!

Este é um espaço colaborativo e democrático, focado em conectar, comunicar e engajar pessoas em prol da conservação da biodiversidade. Conheça nosso time de embaixadores e curadores.

Academia da Conservação
Ler conteúdo completo
Indicados para você