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O Chamado do Mar

O Chamado do Mar

Eu e o Instituto Mar Urbano começamos o primeiro dia ano de 2021 fazendo uma limpeza de praia com mergulho e stand up em Copacabana, movimento encabeçado pela minha filha Nina, que tem 4 anos de idade, mas que aos 3 anos ganhou o premio Tatuí de Ouro do Instituto Ecológico Aqualung, um reconhecimento como a criancinha mais jovem a fazer limpeza de praia em Copacabana. A Nina inspirou uma galera, eu avisei as pessoas que ela estava indo e todo mundo quis ir junto com ela. Levamos até um cachorrinho que virou especialista em pegar plástico.

Foto que fiz da Nina durante a limpeza de praia em Copacabana.

Dia 02 de janeiro choveu forte, eu fiquei em casa me perguntando onde estavam as valas negras por onde o lixo chegaria mais pesado ao mar, pra onde exatamente a chuva carregaria o lixo das ruas? Neste momento vi uma imagem da Rocinha com uma bicicleta descendo carregada pela força da água, logo pensei que São Conrado ficaria cheia de detrito. A chuva não passava, eram 3h da tarde, e foi chovendo, quando chegou quase no final do dia às 17h30, resolvi sair de casa e ir pra lá.

Chegando na praia de São Conrado, sozinho, comecei a gravar uma live registrando todo aquele lixo na areia, tinha muito plástico, muita garrafa pet, bola de futebol em uso eu contei oito, tinha brinquedo de todo o tipo, cabeça de boneca, tinha tudo, era impressionante. No final da live fui me despedir do pessoal, então apontei o celular pro mar, ainda de costas para a água falei para as pessoas que o oceano estava fazendo um chamado, mandando um recado, neste exato momento eu ouvi um barulho que nunca escutei na vida, pensei que poderia ser um helicóptero caindo, não sabia o que era ao certo, quando me virei pude ver uma onda de plástico vindo na minha direção.

Praia de São Conrado.

Eu que pego onda no Rio há 40 anos, nunca tinha visto uma onda de plástico como aquela, foi um verdadeiro tsunami de lixo! Eram talvez cerca de mil garrafas pet de 2 litros, o barulho estrondoso e assustador que ouvi era o som do ar entrando em cada uma daquelas garrafas.

Essa onda passou por mim, e eu fui pra casa, editei a live e coloquei um minuto de vídeo na internet:

Esse vídeo foi um outro tsunami, que em 24 horas deu a volta ao mundo! O Kelly Slater, 11 vezes campeão de surf, publicou nas redes dele. Todos os principais veículos de comunicação publicaram o assunto, em dois dias eu contei 30 reportagens, isso porque ainda nem comecei a contabilizar a TV. Mas sei que elas também falaram do ocorrido, por exemplo, o André Trigueiro no Globo News, e hoje participarei como convidado no programa da Fátima Bernardes para falar sobre essa minha experiência na TV Globo.

A gente as vezes fica esperando um sinal da vida pra agir, e nem sempre a vida nos manda um sinal tão claro desses, não é todo mundo que tem a chance de falar que o oceano está mandando um recado, e no mesmo segundo ele te mandar uma onda dessas que nunca existiu antes, pelo menos não que eu saiba, nunca vi alguma coisa parecida. Senti como um reforço no meu propósito de vida, na mensagem do que eu quero passar de preservação dos oceanos. 

Praia de São Conrado.

Tem sido uma oportunidade para transformar esse tsunami de lixo plástico, em uma onda de comunicação para a conservação do oceano, evidenciando os males causados pelo nosso consumo excessivo de plástico descartável. Transformando esse relato num viral do bem, com informação sobre a problemática do plástico no oceano neste ano de 2021. 

Nessa pandemia, momento onde não podemos abraçar nossos pais e avós, tem muita gente se questionando sobre o que realmente importa nessa vida. Muitas pessoas estão sozinhas, deprimidas, insatisfeitas com o trabalho, com a dificuldade de encontrar um propósito. Eu me senti afortunado de ter recebido esse chamado do oceano. Minha sensação na hora foi que eu estava parecendo o Moisés, que tinha batido o cajado na água, e o mar tinha se aberto. Foi como se eu tivesse batido o cajado, e meu caminho ficou claro na minha frente. O oceano se comunicou comigo, agora espero que mais pessoas entendam essa mensagem, gostaria que o cuidado com o mar fosse o propósito de todas as pessoas do mundo.

O oceano já passou por eventos de extinção em massa, situações muito piores do que estamos causando a ele agora, eventos que extinguiram 97% de todas as espécies vivas no planeta. E ainda assim a vida se regenerou e nós vemos toda essa biodiversidade maravilhosa de hoje. Pegando uma uma conversa que tive com o meu amigo Fernando Fernandez (Professor e Pesquisador na UFRJ), que escreveu "O poema imperfeito", ele brinca e fala que, "se você acha que a natureza é bonita hoje, você deveria ter visto ela há 50 mil anos atrás, antes do do homem chegar e começar a exterminar as espécies do planeta".

Entendamos esta onda de lixo como um chamado, um grito de alerta! Nós estamos sendo engolidos por um tsunami de plástico, e em última análise quem vai sair perdendo com isso é a espécie humana.

O oceano pode ser poluído, ficar ácido, cheio de plástico, e o homem desaparecer do planeta. Depois que formos extintos, após uns 300 anos a vida no mar voltará, depois de uns 10 mil anos não haverá vestígio da espécie humana no planeta, depois de dois milhões de anos se vier um marciano aqui na terra, ele não vai saber que nós existimos. Nós temos que pensar nisso agora!

Vimos que um simples vírus deixou a humanidade em crise, paralisou a economia global, matou milhões de pessoas. Também podemos ver o poder destrutivo do plástico no oceano, acho que este é um alerta pra se somar com o vírus do COVID-19, um alerta pra mudarmos nossos hábitos de consumo, um alerta pra darmos os devidos valores e pesos para as diferentes coisas da nossa vida, como a família e amigos que guardamos no coração.

O oceano tem que estar também junto do nosso coração, como um patrimônio, como um bem imaterial, como um legado para as futuras gerações.

Não podemos mercantilizar o oceano, querer pescar até as espécies serem extintas, jogar todo o nosso lixo no mar, são mais de 8 milhões de toneladas de plástico sendo jogada no mar todos os anos, ainda existe toda a falta de saneamento básico, todos os despejos de fertilizantes agrícolas causando mais de 500 zonas mortas no oceano, e a gente só usando o oceano pra transporte, alimentação, lazer, mas e aí, seguimos assim e ficará tudo bem?

Essa onda, ela veio pra marcar, o que faremos pelo oceano? Ele que nos deu a vida e nos permite viver neste planeta.

Você sabia que 70% do oxigênio presente na atmosfera vem da fotossíntese marinha das microalgas (fitoplâncton)? Que bebemos água por causa do oceano? Que o clima só está assim desse jeito por conta do oceano que absorve 30% de todo dióxido de carbono que o ser humano joga na atmosfera? Se não fosse esse serviço ecossistêmico da regulação do clima com a absorção do dióxido de carbono, nós já estaríamos vivendo um cataclisma climático, teríamos uma temperatura onde a nossa vida na terra seria inviável.

Chegou a hora mesmo da gente entender o oceano de outra maneira, de entrar na Década do Oceano, de colocar o mar em pauta, de conversar com os nossos filhos, de molhar as nossas crianças, de deixar um legado.

Eu com a minha filha vejo muito bem isso, a Nina tem 4 anos, aprendeu a mergulhar ainda bebê com 1 ano e 7 meses, onde já fazia mergulhos noturnos comigo. Hoje, aos 4 anos de idade, ela virou uma pequena defensora do oceano. Acredito que esse é o meu legado, é um presente que deixo pro oceano, a educação da minha filha. Imagino quando eu for mais velho, eu espero ser bem velhinho, com 90 e tantos, beirando os 100, na minha cama, com minha família por perto, e minha filha olhando nos meus olhos e sabendo que no momento mais importante da história do homem em cuidar do oceano, eu pude mudar o meu trabalho, fundar uma ONG aos 50 anos e dedicar a minha vida para cuidar da biodiversidade marinha e lutar contra a poluição dos oceanos.

Espero que muitas pessoas reflitam sobre essa onda de plástico sem culpar ninguém, mas olhando pra dentro de si mesmo, e vendo onde pode contribuir e o que pode fazer para somar, sendo uma gotinha que faz a diferença no oceano. Agindo localmente, começamos a resolver um grande problema que é global, o oceano é um só e a contribuição de cada um é importante!

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Ricardo Andrade Gomes
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Ricardo Gomes Biólogo Marinho formado pela UFRJ, Fotógrafo, cinegrafista, produtor e diretor.Trabalhou por seis anos como editor adjunto de fotografia do jornal O Globo. Desde 1996 assina reportagens para publicações como NY Times, Los Angeles Times

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